quinta-feira, 14 de julho de 2016

Bullying: quando a brincadeira vira violência

Em fevereiro deste ano, entrou em vigor em todo o território nacional a lei anti-bullying, sancionada em novembro do ano passado pela Presidência da República. Apesar de não estabelecer multas e punições aos estabelecimentos que descumprirem as regras, o objetivo principal é combater e prevenir as práticas de agressões em todo o país, além de promover medidas de conscientização e combate a todos os tipos de violência na escola.
A lei define o termo "bullying" "como todo ato de violência física ou psicológica, intencional e repetitivo, praticado por indivíduo ou grupo, contra uma ou mais pessoas" e diz que a escola e clubes devem "promover a cidadania e o respeito a terceiros, nos marcos de uma cultura de paz e tolerância mútua". Além disso, sob a ótica da legislação, a escola deve também capacitar docentes e equipes pedagógicas para ações de prevenção e implementar e disseminar campanhas de educação, conscientização e informação.
O "bullying" ganhou nome e fama agora, mas todos sabemos que ele existe há décadas: apelidos infelizes, brincadeiras de mau gosto, agressões físicas e violências psicológicas podem criar traumas e prejudicar uma vida inteira. Além de um provável isolamento e queda do rendimento, jovens que enfrentam o racismo e humilhações difamatórias podem desenvolver doenças psicossomáticas. O problema ultrapassa os limites do âmbito educacional: ele é, antes de tudo, uma questão social. A sociedade, em todas as suas esferas, já deveria ter resolvido esse problema há bastante tempo, antes de chegar ao ponto de se tornar lei. Nós, escolas e diretores, também somos responsáveis. Sempre tivemos a missão de promover aos nossos alunos uma educação plena: aquela voltada à construção de um ambiente pacificador, às práticas inclusivas, à profusão da diversidade, o incentivo ao respeito.
Diversas instituições realizam programas e ações louváveis nesse sentido, mas sinto que ainda paira um despreparo na hora de lidar com os casos de agressão ou até mesmo indisciplina em sala de aula. A própria família, que cada vez mais transfere responsabilidade educativa para a escola, esquece que é preciso transmitir valores básicos na criação dos filhos, como o respeito e tolerância. Falta também preparo e capacidade do professor em identificar os casos em suas turmas, como também há uma resistência muito grande das escolas em falar sobre o assunto. A violência sempre existiu, vivemos em uma sociedade violenta e os nossos alunos nada mais são que frutos dessa mesma sociedade. Está na hora da escola admitir a ocorrência do bullying, mesmo sendo um tema desconfortável, e colocá-lo alinhado aos valores construtivos e pacificadores que sempre estiveram presentes na concepção do ambiente escolar. Está na hora de unirmos esforços para eliminá-lo, mesmo sabendo que o fim da violência não depende apenas da escola.
A crise ou ausência de valores humanos tem conduzido o homem ao caminho da intolerância, do preconceito, do desrespeito, da falta de solidariedade. Neste contexto, a educação para a paz tem emergido como sentido da humanidade e da finalidade da educação. Há alguns anos, a Unesco tem falado sobre a importância de se pensar um mundo diverso e, ao mesmo tempo, pacífico. E a educação é uma das chaves para essa conquista. Desenvolver estratégias psicopedagógicas que envolvam a comunidade escolar é iniciativa imprescindível para o caminho da paz. Combater o bullying é transformar o ambiente da escola num ambiente cooperativo, onde diferentes possam conviver em harmonia e se desenvolver enquanto humanos. A paz não é apenas o contrário de guerra, mas a compreensão dos princípios e respeito pela liberdade, justiça, democracia, direitos humanos, tolerância, igualdade e solidariedade.
Desde 2010, o SINEP/MG tem tido uma atenção especial aos temas relacionados aos direitos humanos. Em 2013, em parceria com o Ministério Público, participamos da campanha "Conte até 10", que estimulava a tolerância e a cooperação entre os cidadãos. No mesmo ano, enviamos uma cartilha às escolas sobre a prática do bullying e a maneira de identificá-lo e de evitá-lo. Tornamos a enviá-la em 2015, quando a lei foi sancionada. Regularmente, diretores e diretoras de escolas mineiras são convidados a participar de cursos, palestras e campanhas que visam reduzir toda e qualquer prática de discriminação porque é desta forma que enxergamos um mundo mais justo.


Prof. Emiro Barbini é presidente do Sindicato das Escolas Particulares de Minas Gerais (SINEP/MG), Federação dos Estabelecimentos de Ensino de Minas Gerais (FENEN/MG) e proprietário do Colégio M2.

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