Como o ser humano aprende a
compreender uma narrativa, a ponto de se tornar um dia um contador de
histórias? Essa pergunta sempre rondou os meus botões.
Pois tive a resposta quando li o
primeiro livro de histórias para meus netinhos gêmeos, Rufo e Flora. Com pouco
mais de um aninho, eles não param quietos um segundo. O mundo, para eles,
é um parque de brinquedos, eles experimentam tudo. Sobem em móveis, derramam
coisas, apertam botões, metem o dedo onde não devem. Cúmplices nas
brincadeiras, um morre de rir quando o outro faz alguma travessura.
Sem esperança de colocá-los quietos,
sentei-me com eles no sofá e comecei a passar as páginas do livro. Eu não tinha
como ler a história, pois eles não compreenderiam. Mal balbuciavam as primeiras
palavrinhas. Comecei, então a criar uma outra narrativa, diferente da que
estava no livro. Eu mostrava as imagens retratadas e inventava sons, caretas,
risos e gestos, para contar eventos muito mais simples: o macaco corre atrás da
onça, o passarinho aparece e canta, o sapo pula...
De repente, meus netinhos endiabrados pararam
toda a algazarra, acompanhando a narrativa maluca com olhinhos ávidos, em
silêncio. Quando acabou toda a minha invenção, fiquei satisfeita. Enfim!
Tinha descoberto uma forma de mantê-los interessados - e quietos - por alguns
momentos.
Cansada, fechei o livro, já
pensando qual outra brincadeira eu iria bolar para mantê-los felizes. Eles não
deixaram. Abriram o livrinho no meu colo, voltando à primeira página.
"Mais, vovó, mais!" Só então entendi: eu tinha descoberto um
brinquedo que eles tinham amado mais do que todos e o que fazer agora? Tinha
que recontar, ao infinito, a mesma história, em fragmentos, da qual eu mesma já
não me lembrava. Toca a inventar outra, vovó, e outra, e outra, e outra.

Nenhum comentário:
Postar um comentário