Menino pode brincar de boneca?
É muito comum em meu dia a dia escutar a
preocupação dos pais acerca das brincadeiras de seus filhos. Frases como estas
é habitual: “estou muito preocupado com meu filho porque ele não brinca de
futebol e se falar de namorada com ele, “ixi” sai briga, mas homem que é homem,
desde pequeno tem se ser macho”. Pergunto a idade do filho e a resposta é: “ah,
ele já tem cinco anos”. Outro fato interessante foi uma menina de quatro anos que
pediu de natal um carrinho com controle remoto e muitos parentes ficaram
dizendo “Isso não é brinquedo de menina! Menina brinca de boneca e menino de
carrinho e se um se interessar pelo brinquedo do outro, cuidado, alguma coisa
está errada”. Você também já ouviu comentários assim, não é?
É notável, portanto, que a preocupação, com relação aos brinquedos e as brincadeiras, são sempre
dos pais. A criança não pergunta se o brinquedo é de menino ou menina, ela
brinca. Você já viu alguma menina de três anos recusando brincar com um
carrinho só porque disseram que carrinho é de menino? Na verdade os pais têm receio que a brincadeira ou o brinquedo venha
influenciar a orientação sexual do filho (a). E a partir desta crença que
alguns pais criam preconceitos e reagem de forma repressiva prejudicando o
emocional e a relação entre pais e filhos. Com certeza você já escutou varias
vezes algum pai falando bravamente com o filho pequeno: “menino solta esta
boneca, seu mariquinha, parece mulherzinha, você não é homem, não?”. Frases
assim podem causar dano à criança. Por isso, este artigo tem a intenção de
desmistificar acerca deste tema, “menino brinca de carrinho e menina de boneca”,
e assim, através da informação e orientação, nós pais possamos cometer menos
erros. Ressalta-se, que o tema de hoje não é relacionado à orientação sexual, mas
sim aos papéis que são atribuídos a homens e mulheres desde a infância.
Inicialmente é importante que fique bem claro que
não existe brincadeira de menino ou de
menina, é a nossa cultura que estabelece essa diferença, impondo normas sociais.
Exemplo: menina veste rosa e o menino veste azul. Você já pensou o por quê? Não
sabemos a resposta, pois é cultural, ou seja, de geração em geração pais falam
para os filhos que rosa é de menina e azul é de menino. Como a criança está em
formação em todos os aspectos, inclusive o cultural, ela não nasce com a
concepção, boneca é de menina e carrinho é de menino, pelo contrário, ela quer
apenas brincar.
Sabe-se que é por meio do brincar que a criança
aprende a lidar com os próprios sentimentos, buscando compreender o mundo, os
valores e a identidade. Atendo uma criança cujo padrasto faleceu e uma das
formas dele elaborar esta perda foi brincando de casinha com o irmão menor. Sendo
assim, foi muito saudável para este menino brincar de casinha.
Brincar é uma repetição que a criança faz da
realidade que por ela é percebida. Há algum tempo atrás as esposas cuidavam dos
filhos enquanto somente os maridos trabalhavam fora. Dessa forma, geralmente os
meninos não se interessavam muito por bonecas, pois eles não viam seus pais
trocando fraldas. Hoje em dia é diferente, a mulher trabalhar, dirige automóvel
e o pai ajuda a cuidar dos filhos. Então por que a menina não pode brincar de
carrinho, sendo que ela vê a mãe dirigir? Por que o filho não pode brincar com
boneca se o pai carrega o filho bebê no colo e ainda troca a fralda? A criança só está imitando o cotidiano, não
tem haver com a orientação sexual. Temos uma campeã, um referencial no
esporte que é a Marta do futebol feminino, então por que é errado uma
adolescente ou uma menina gostar de futebol e querer ser uma jogadora como a
Marta? Convido-lhe a fazer essas reflexões conosco. Veja abaixo também outros
casos comuns, mas que geram preocupação em algumas famílias.
Existem alguns comportamentos que é interessante salientar:
quando um menino pequeno passa o batom da mãe ou coloca seu salto alto. Não se desespere!
É normal nesta idade o menino querer imitar
a mãe, experimentando esse papel materno. Pode ocorrer também que a
criança, por exemplo, o menino que é criado com uma mãe e muitas irmãs, sem um
referencial masculino (pai ausente ou muito severo) que ele possa apresentar um
comportamento mais delicado, porque há uma falta de referencial masculino. Gestos efeminados não significam
homossexualidade. Os gestos de uma criança são influenciados pelos gestos de
pessoas que exercem um papel muito dominante em sua vida. Este ano estou
atendendo um adolescente nessa situação, na qual faltou este modelo masculino
(o pai faleceu quando ele era muito pequeno), e ele foi criado em meio a muitas
mulheres e com a superproteção da mãe. O garoto se tornou um adolescente
indefeso, frágil, afeminado. Logo a família o reprimiu de forma rígida dizendo
que seu comportamento “não era de menino”. Resultado: a auto-estima deste rapaz
foi muito abalada negativamente, ele se via como errado, menosprezado e
incapaz. Enfim, o comportamento dele não expressava sua orientação sexual, mas
a família com o preconceito e a falta de aceitação o prejudicou muito.
O que se deve fazer em situações como esta:
- É necessária a interação com outros homens para que o menino possa perder o
medo do masculino e vice-versa com a menina.
- É importante que os pais observem o
comportamento da criança passando um tempo
de qualidade com ela, propiciando um espaço para questões e respondê-las
com simplicidade. E, quando necessário, abrir uma discussão sobre
diferenças entre gêneros e combater o preconceito.
- Demonstração
de carinho e apoio. Os pais amam seus filhos, porém muitos não
demonstram este amor, principalmente quando eles crescem. Abrace, beije,
brinque com eles, mesmo se ele for “crescidinho (a)”, aprenda a partilhar
seus sentimentos. Tais gestos são
fundamentais para a criança criar autoconfiança e se desenvolver
plenamente.
- Os
pais devem corrigir hábitos sem envergonhar publicamente o filho. E,
esperar por certa resistência, no que diz respeito “revestir-se” de
comportamentos do gênero biológico. É preciso muita sabedoria para saber
pressionar e recuar nos estímulos que ajudam a desenvolver a masculinidade/feminilidade
da criança.
Por fim, deixem os pequenos brincarem, eles
estão descobrindo o novo, explorando, e isso faz parte do desenvolvimento
natural deles. Promova um ambiente para a criança expressar suas vontades, seus
desejos e suas afinidades. Os filhos não serão do jeito que nós somos e nem do
jeito que queremos que eles sejam! Vamos orientá-los respeitando sua
individualidade. O respeito, a aceitação e o amor são essenciais e se inicia na
infância, no seio familiar. Meninos e meninas podem brincar do que tiver vontade,
o importante é que se divirta de maneira saudável e feliz, desenvolvendo suas
habilidades motoras, amadurecendo seus sentimentos, para se tornar um adulto
também saudável e feliz!
Que tal revermos nossos valores?
Psicóloga e palestrante Jaqueline A. Pinto.

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