quarta-feira, 27 de maio de 2015

Menino pode brincar de boneca?





Menino pode brincar de boneca?

É muito comum em meu dia a dia escutar a preocupação dos pais acerca das brincadeiras de seus filhos. Frases como estas é habitual: “estou muito preocupado com meu filho porque ele não brinca de futebol e se falar de namorada com ele, “ixi” sai briga, mas homem que é homem, desde pequeno tem se ser macho”. Pergunto a idade do filho e a resposta é: “ah, ele já tem cinco anos”. Outro fato interessante foi uma menina de quatro anos que pediu de natal um carrinho com controle remoto e muitos parentes ficaram dizendo “Isso não é brinquedo de menina! Menina brinca de boneca e menino de carrinho e se um se interessar pelo brinquedo do outro, cuidado, alguma coisa está errada”. Você também já ouviu comentários assim, não é?
É notável, portanto, que a preocupação, com relação aos brinquedos e as brincadeiras, são sempre dos pais. A criança não pergunta se o brinquedo é de menino ou menina, ela brinca. Você já viu alguma menina de três anos recusando brincar com um carrinho só porque disseram que carrinho é de menino? Na verdade os pais têm receio que a brincadeira ou o brinquedo venha influenciar a orientação sexual do filho (a). E a partir desta crença que alguns pais criam preconceitos e reagem de forma repressiva prejudicando o emocional e a relação entre pais e filhos. Com certeza você já escutou varias vezes algum pai falando bravamente com o filho pequeno: “menino solta esta boneca, seu mariquinha, parece mulherzinha, você não é homem, não?”. Frases assim podem causar dano à criança. Por isso, este artigo tem a intenção de desmistificar acerca deste tema, “menino brinca de carrinho e menina de boneca”, e assim, através da informação e orientação, nós pais possamos cometer menos erros. Ressalta-se, que o tema de hoje não é relacionado à orientação sexual, mas sim aos papéis que são atribuídos a homens e mulheres desde a infância.

Inicialmente é importante que fique bem claro que não existe brincadeira de menino ou de menina, é a nossa cultura que estabelece essa diferença, impondo normas sociais. Exemplo: menina veste rosa e o menino veste azul. Você já pensou o por quê? Não sabemos a resposta, pois é cultural, ou seja, de geração em geração pais falam para os filhos que rosa é de menina e azul é de menino. Como a criança está em formação em todos os aspectos, inclusive o cultural, ela não nasce com a concepção, boneca é de menina e carrinho é de menino, pelo contrário, ela quer apenas brincar.
Sabe-se que é por meio do brincar que a criança aprende a lidar com os próprios sentimentos, buscando compreender o mundo, os valores e a identidade. Atendo uma criança cujo padrasto faleceu e uma das formas dele elaborar esta perda foi brincando de casinha com o irmão menor. Sendo assim, foi muito saudável para este menino brincar de casinha.
Brincar é uma repetição que a criança faz da realidade que por ela é percebida. Há algum tempo atrás as esposas cuidavam dos filhos enquanto somente os maridos trabalhavam fora. Dessa forma, geralmente os meninos não se interessavam muito por bonecas, pois eles não viam seus pais trocando fraldas. Hoje em dia é diferente, a mulher trabalhar, dirige automóvel e o pai ajuda a cuidar dos filhos. Então por que a menina não pode brincar de carrinho, sendo que ela vê a mãe dirigir? Por que o filho não pode brincar com boneca se o pai carrega o filho bebê no colo e ainda troca a fralda? A criança só está imitando o cotidiano, não tem haver com a orientação sexual. Temos uma campeã, um referencial no esporte que é a Marta do futebol feminino, então por que é errado uma adolescente ou uma menina gostar de futebol e querer ser uma jogadora como a Marta? Convido-lhe a fazer essas reflexões conosco. Veja abaixo também outros casos comuns, mas que geram preocupação em algumas famílias.
Existem alguns comportamentos que é interessante salientar: quando um menino pequeno passa o batom da mãe ou coloca seu salto alto. Não se desespere! É normal nesta idade o menino querer imitar a mãe, experimentando esse papel materno. Pode ocorrer também que a criança, por exemplo, o menino que é criado com uma mãe e muitas irmãs, sem um referencial masculino (pai ausente ou muito severo) que ele possa apresentar um comportamento mais delicado, porque há uma falta de referencial masculino. Gestos efeminados não significam homossexualidade. Os gestos de uma criança são influenciados pelos gestos de pessoas que exercem um papel muito dominante em sua vida. Este ano estou atendendo um adolescente nessa situação, na qual faltou este modelo masculino (o pai faleceu quando ele era muito pequeno), e ele foi criado em meio a muitas mulheres e com a superproteção da mãe. O garoto se tornou um adolescente indefeso, frágil, afeminado. Logo a família o reprimiu de forma rígida dizendo que seu comportamento “não era de menino”. Resultado: a auto-estima deste rapaz foi muito abalada negativamente, ele se via como errado, menosprezado e incapaz. Enfim, o comportamento dele não expressava sua orientação sexual, mas a família com o preconceito e a falta de aceitação o prejudicou muito.
O que se deve fazer em situações como esta:
  • É necessária a interação com outros homens para que o menino possa perder o medo do masculino e vice-versa com a menina.
  • É importante que os pais observem o comportamento da criança passando um tempo de qualidade com ela, propiciando um espaço para questões e respondê-las com simplicidade. E, quando necessário, abrir uma discussão sobre diferenças entre gêneros e combater o preconceito.
  • Demonstração de carinho e apoio. Os pais amam seus filhos, porém muitos não demonstram este amor, principalmente quando eles crescem. Abrace, beije, brinque com eles, mesmo se ele for “crescidinho (a)”, aprenda a partilhar seus sentimentos. Tais gestos são fundamentais para a criança criar autoconfiança e se desenvolver plenamente.
  • Os pais devem corrigir hábitos sem envergonhar publicamente o filho. E, esperar por certa resistência, no que diz respeito “revestir-se” de comportamentos do gênero biológico. É preciso muita sabedoria para saber pressionar e recuar nos estímulos que ajudam a desenvolver a masculinidade/feminilidade da criança.
Por fim, deixem os pequenos brincarem, eles estão descobrindo o novo, explorando, e isso faz parte do desenvolvimento natural deles. Promova um ambiente para a criança expressar suas vontades, seus desejos e suas afinidades. Os filhos não serão do jeito que nós somos e nem do jeito que queremos que eles sejam! Vamos orientá-los respeitando sua individualidade. O respeito, a aceitação e o amor são essenciais e se inicia na infância, no seio familiar. Meninos e meninas podem brincar do que tiver vontade, o importante é que se divirta de maneira saudável e feliz, desenvolvendo suas habilidades motoras, amadurecendo seus sentimentos, para se tornar um adulto também saudável e feliz! 
Que tal revermos nossos valores? 
Psicóloga e palestrante Jaqueline A. Pinto. 

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