quarta-feira, 26 de março de 2014

Romeu e Julieta na visão de uma criança

         Romeu e Julieta na visão de uma criança


Por esses dias, eu estava lendo, para minha neta Aurora, de 8 aninhos, uma adaptação de Romeu e Julieta. Ela me perguntou logo: “O que é adaptação, vó?” Expliquei que é quando uma história é contada de uma forma mais simples e gostosa, para que as crianças possam compreendê-la. 
Satisfeita com a explicação, ela acompanhou, atenta, toda a história. Torceu comigo pela felicidade dos jovens que começaram a se amar, apesar de suas famílias serem inimigas, embora eu soubesse o final, e ela... não. Ela não sabia que a linda história de amor talvez tenha se tornado tão célebre justamente por causa do final tão trágico: ambos se matam, por se julgarem incapazes de viver um sem o outro. Ao me aproximar do final do livro, passei a ler com o coração em sobressaltos, de um lado, por me inquietar com o infortúnio dos namorados, de outro, porque teria que contar esse desfecho terrível à minha netinha. Como dizer a ela que um grande amor pode não terminar em véu e grinalda, como nas novelas de TV, mas, pelo contrário, ser eternizado pela morte? O que uma menininha de 8 anos poderia entender da morte? Morte é coisa para gente velha, pensei, querendo me eximir da responsabilidade de contar a ela que as pessoas, como eu, podem desaparecer de repente. Na idade em que ela está, eu me dizia, a  morte pode ser apenas uma brincadeira, em que um dos parceiros cai e se levanta de novo; não uma coisa definitiva e irrevogável. Tentei mentir e adulterei o final: ...então, Romeu e Julieta terminam dormindo, abraçados um ao outro. Mostrei a ilustração, para corroborar minhas palavras. 
Ela estranhou e não se conformou. Começou a tentar ler o texto sozinha, devagar, as palavras fluindo com alguma dificuldade, como se ela as soletrasse. Deixei que ela lesse, o coração apertado. Por fim, acabou concluindo: - Não é isso o que acontece, vó! E se voltou para mim, indignada: - Vc está adaptando a adaptação?! Eu tive que confessar que estava sim. Muito brava, ela me pediu, então, que contasse a história toda direito. E foi o que eu fiz.  
Minha neta dormiu sorrindo. As crianças sabem compreender quando se fala  verdade a elas com naturalidade, sem rodeios.  Em seu rostinho doce, compreendi que não apenas a morte existe, mas faz parte da natureza. 



Crônica escrita por Guiomar de Grammont .







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