quarta-feira, 18 de junho de 2014

O Processo Tecnológico da Leitura e Escrita




O Processo Tecnológico da Leitura e Escrita
                                                                                     
                                                                                               Profª Bárbara Macêdo


                         Ao pensarmos em tecnologia, geralmente imaginamos um universo repleto de cabos óticos, mídias sociais, pontos eletrônicos e uma extensa rede de conexões que utilizamos para nos comunicar. Tal idéia nem de longe nos faz pensar o processo da leitura e da escrita como uma invenção inteligente, produzidas por um ser humano movido pelos mesmos anseios, curiosidades e necessidades atuais de estabelecer intercâmbios com o meio em que vive.
A necessidade de transcrever os acontecimentos surgiu com o homem primitivo no tempo das cavernas, quando este começou a gravar imagens nas paredes.
Há aproximadamente 6.000 anos, entre os rios Tigre e Eufrates na antiga Mesopotâmia (atual Iraque), surgiu o primeiro tipo de escrita. Nessa época bastante remota, os mesopotâmios utilizavam cerca de 1.500 símbolos, os quais representavam objetos ou conceitos por meio de desenhos figurativos. Esta forma de expressão é chamada pictográfica.
Passados mais ou menos 1.000 anos, esses pictogramas começaram a ser substituídos por sinais em forma de cunha, dando origem a escrita que ficou conhecida como cuneiforme.
A humanidade precisou de milhares de anos para substituir os pictogramas e os hieróglifos por letras, sendo impossível determinar com exatidão a verdadeira data de surgimento do alfabeto. Acredita-se que o alfabeto primitivo tenha sido criado há aproximadamente 4.000 anos pelos fenícios (povo que viveu no território onde hoje fica o Líbano, no litoral do mar Mediterrâneo).
Todas essas “engenhocas” trazidas ao mundo foram fruto do desenvolvimento tecnológico, as quais resultaram no aperfeiçoamento da comunicação e consequentemente tiveram papel fundamental no âmbito da inovação, do progresso e do desenvolvimento do bem estar da humanidade.

O próprio Platão já pensava na escrita como uma tecnologia externa, constante, criada por etapas e compartilhada como muitas pessoas fazem hoje em relação ao computador. A escrita (especialmente a alfabética) é uma tecnologia que exige o uso de ferramentas e outros equipamentos: canetas, pincéis, estiletes, superfícies cuidadosamente preparadas, peles de animais, tiras de madeira, assim como tintas ou pinturas e muitos outros.
As escolas, por serem diretamente responsáveis por levar a criança à descoberta do alfabeto, devem ser consideradas na produção desse conhecimento de forma crítica. Isso porque a aquisição da competência letrada ultrapassa a simples apresentação do alfabeto, pois tal conhecimento exige que seja precedido do desenvolvimento de um sistema de instrução especialmente programado para crianças.
O trabalho com a alfabetização e letramento na escola é eficiente quando entendemos a alfabetização como processo tecnológico, onde a aquisição da leitura, escrita e letramento derivam de estratégias conexas para a construção de significados, envolvendo as experiências individuais e do grupo, duas atividades essenciais para a formação intelectual do indivíduo alfabetizado. Pois, considerando o alfabetizado como aquele que lê, interpreta e compreende a mensagem trazida no texto, este elabora a transferência técnica e criativa da leitura para as suas experiências cotidianas.
            Geralmente, antes de frequentar os anos iniciais da escola, a criança já faz uso da língua com total desembaraço. Talvez por isso, o processo de aquisição da linguagem oral não seja motivo de tantas preocupações por parte dos estudiosos dessa temática. Entretanto, ao longo da história, o que tem chamado atenção dos especialistas é o processo de aquisição da tecnologia da comunicação escrita e consequentemente da leitura e dos mecanismos que perpassam o campo da construção do sentido.
A comunicação escrita é uma representação simbólica da linguagem falada. Porém, não consegue ser totalmente fiel a ela, pois as possibilidades do uso da linguagem falada são inúmeras, enquanto a escrita tenta apenas se aproximar desse universo.
            Os modelos teóricos de aquisição da leitura e da escrita dividem esse processo em vários estágios. A constatação pôde ser visualizada a partir, de pesqui­sas apresentadas na década de 1980, como as de Marsh et al. (1981), Frith (1985), Ferreiro e Teberosky (1985), Read et al. (1986), entre outras, que se basearam nos fundamentos da Pedagogia e Psico­logia Cognitiva.
            Em relatos de pesquisa do Frith (1985), a aquisição e o desenvolvimento da leitura e da escrita é um processo interativo que passa por três fases: Logográfica (criança lê de maneira visual direta), Alfabética (processo de associação fonema-grafema) e Ortográfica (consegue organizar as unidades ortográficas).
            Os níveis descritos por Emília Ferreiro para a construção da tecnologia da escrita passam pelos níveis Pré-Silábico (Fase gráfica primitiva – símbolos e pseudoletras); Intermediário (fase misturadas com letras e números); Hipóteses Silábicas (a criança descobre que pode haver relação entre a palavra e a quantidade de partes da pronúncia oral); Silábico-Alfabético (escreve palavras que tenham só vogais ou até mesmo só consoantes); Hipótese Alfabética (a criança estabelece correspondência entre fonema e grafema e compreende que uma sílaba pode ser formada por duas ou três letras). Nessa última fase, a criança já começa a dominar com maior segurança a tecnologia da comunicação seja ela oral ou escrita.
Ao depararmos com todos os argumentos da “Tekhne”“ (termo que associado a “Logos” resulta em Tecnologia no idioma grego), concluímos que os processos da escrita e da linguagem são fruto da engenharia humana que se desenvolveram ao longo dos séculos e que resultaram em uma complexa estrutura que permite ao indivíduo estabelecer conexões intelectuais que lhe possibilitam uma série de interatividades, as quais ultrapassam muito a dimensão única da cibercultura, mas que mesmo sendo esse meio imensamente utilizado nos dias de hoje, ainda remonta ao conduto primitivo e criativo ao usar os mecanismos para estabelecer vínculos e construir maiores perspectivas ao longo da vida.



                                                             

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