O Processo
Tecnológico da Leitura e Escrita
Profª Bárbara Macêdo
A necessidade de transcrever os acontecimentos surgiu com o homem primitivo no tempo das
cavernas, quando este começou a gravar imagens nas paredes.
Há aproximadamente 6.000 anos,
entre os rios Tigre e Eufrates na antiga Mesopotâmia (atual Iraque), surgiu o
primeiro tipo de escrita. Nessa época bastante remota, os mesopotâmios
utilizavam cerca de 1.500 símbolos, os quais representavam objetos ou conceitos
por meio de desenhos figurativos. Esta forma de expressão é chamada
pictográfica.
Passados mais ou menos 1.000 anos,
esses pictogramas começaram a ser substituídos por sinais em forma de cunha,
dando origem a escrita que ficou conhecida como cuneiforme.
A humanidade precisou de milhares de anos
para substituir os pictogramas e os hieróglifos por letras, sendo impossível
determinar com exatidão a verdadeira data de surgimento do alfabeto. Acredita-se
que o alfabeto primitivo tenha sido criado há aproximadamente 4.000 anos pelos
fenícios (povo que viveu no território onde hoje fica o Líbano, no litoral do
mar Mediterrâneo).
Todas essas “engenhocas” trazidas ao
mundo foram fruto do desenvolvimento tecnológico, as quais resultaram no
aperfeiçoamento da comunicação e consequentemente tiveram papel fundamental no
âmbito da inovação, do progresso e do desenvolvimento do bem estar da
humanidade.
O próprio
Platão já pensava na escrita como uma tecnologia externa, constante, criada por
etapas e compartilhada como muitas pessoas fazem hoje em relação ao computador.
A escrita (especialmente a alfabética) é uma tecnologia que exige o uso de
ferramentas e outros equipamentos: canetas, pincéis, estiletes, superfícies
cuidadosamente preparadas, peles de animais, tiras de madeira, assim como
tintas ou pinturas e muitos outros.
As escolas, por serem diretamente responsáveis
por levar a criança à descoberta do alfabeto, devem ser consideradas na
produção desse conhecimento de forma crítica. Isso porque a aquisição da
competência letrada ultrapassa a simples apresentação do alfabeto, pois tal
conhecimento exige que seja precedido do desenvolvimento de um sistema de
instrução especialmente programado para crianças.
O trabalho com a alfabetização e
letramento na escola é eficiente quando entendemos a alfabetização como processo
tecnológico, onde a aquisição da leitura, escrita e letramento derivam de
estratégias conexas para a construção de significados, envolvendo as
experiências individuais e do grupo, duas atividades essenciais para a formação
intelectual do indivíduo alfabetizado. Pois, considerando o alfabetizado como aquele
que lê, interpreta e compreende a mensagem trazida no texto, este elabora a
transferência técnica e criativa da leitura para as suas experiências
cotidianas.
Geralmente,
antes de frequentar os anos iniciais da escola, a criança já faz uso da língua
com total desembaraço. Talvez por isso, o processo de aquisição da linguagem oral
não seja motivo de tantas preocupações por parte dos estudiosos dessa temática.
Entretanto, ao longo da história, o que tem chamado atenção dos especialistas é
o processo de aquisição da tecnologia da comunicação escrita e consequentemente
da leitura e dos mecanismos que perpassam o campo da construção do sentido.
A comunicação escrita é uma
representação simbólica da linguagem falada. Porém, não consegue ser totalmente
fiel a ela, pois as possibilidades do uso da linguagem falada são inúmeras, enquanto
a escrita tenta apenas se aproximar desse universo.
Os modelos
teóricos de aquisição da leitura e da escrita dividem esse processo em vários
estágios. A constatação pôde ser visualizada a partir, de pesquisas
apresentadas na década de 1980, como as de Marsh et al. (1981), Frith (1985),
Ferreiro e Teberosky (1985), Read et al. (1986), entre outras, que se basearam
nos fundamentos da Pedagogia e Psicologia Cognitiva.
Em
relatos de pesquisa do Frith (1985), a aquisição e o desenvolvimento da leitura
e da escrita é um processo interativo que passa por três fases: Logográfica
(criança lê de maneira visual direta), Alfabética (processo de associação
fonema-grafema) e Ortográfica (consegue organizar as unidades ortográficas).
Os
níveis descritos por Emília Ferreiro para a construção da tecnologia da escrita
passam pelos níveis Pré-Silábico (Fase gráfica primitiva – símbolos e
pseudoletras); Intermediário (fase misturadas com letras e números); Hipóteses
Silábicas (a criança descobre que pode haver relação entre a palavra e a
quantidade de partes da pronúncia oral); Silábico-Alfabético (escreve palavras
que tenham só vogais ou até mesmo só consoantes); Hipótese Alfabética (a
criança estabelece correspondência entre fonema e grafema e compreende que uma
sílaba pode ser formada por duas ou três letras). Nessa última fase, a criança
já começa a dominar com maior segurança a tecnologia da comunicação seja ela
oral ou escrita.
Ao depararmos com todos os
argumentos da “Tekhne”“ (termo que associado a “Logos” resulta em Tecnologia no
idioma grego), concluímos que os processos da escrita e da linguagem são fruto da
engenharia humana que se desenvolveram ao longo dos séculos e que resultaram em
uma complexa estrutura que permite ao indivíduo estabelecer conexões
intelectuais que lhe possibilitam uma série de interatividades, as quais ultrapassam
muito a dimensão única da cibercultura, mas que mesmo sendo esse meio
imensamente utilizado nos dias de hoje, ainda remonta ao conduto primitivo e
criativo ao usar os mecanismos para estabelecer vínculos e construir maiores
perspectivas ao longo da vida.

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